domingo, 31 de julho de 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Concha

   Afastou a cortina para o lado e fixou o olhar no passeio. Ninguém passava na rua. Pôs-se à escuta e pareceu-lhe ouvir passos. Escutou mais atentamente. Não escutava nada. Era imaginação. Imaginação ou desejo? Provavelmente, o desejo remanescente de esperar quem não volta, aquele último resquício de esperança que aquece um peito que já desacreditou no regresso.

   Suspirou e perdeu-se num pensamento que o guiou pelas ruas vazias de gente. Era Verão. A cidade estava ausente de si e não se ouviam os ruídos habituais. Nem passos apressados, nem lentos, nem solitários, nem acompanhados, nem cúmplices, nem distraídos. Nada. Rugia, ao longe, a buzina de um barco que anunciava a chegada à barra. Além daquele barco, ninguém mais parecia existir no mundo. Vinha-lhe à memória um verso distante de Vitorino Nemésio: «A minha casa é concha» - e era na sua concha que sentia a segurança que o contacto com o exterior ameaçava.

   Tomou uma resolução. Afastou-se da janela. Ia recolher-se na concha e esconder-se. Pegou na dor que lhe retraçara o peito e dobrou-a com cuidado, como uma manta que ainda poderia vir a ter utilidade. Fechou-a na última gaveta da cómoda, naquela onde guardava memórias e relíquias – alguns talismãs – que, ao longo do tempo, lhe foram sendo confiados – ou abandonados - por pessoas que passavam pela sua vida. Pessoas. Transeuntes. Meros passeantes que deixavam marcas sem saber. Meros peões descuidados que pisavam as flores com que, magnificamente, lhes atapetara o caminho de acesso à sua concha. Peões que nunca conhecerão o cheiro de uma flor ou o verdadeiro brilho que dela emana. Transeuntes iguais a tantos outros – de tão ocos – que perdem os contornos do rosto e se confundem com os objetos acumulados na gaveta do fundo. Não vale a pena ceder à dor latente que teima em se manifestar. Não vale a pena. Antes a solidão e o silêncio.

    Pegou no livro que tinha em cima da cama e virou a página. Como disse Saint-Exupéry, «Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção».

Cerejas

     O vento agita as árvores e de ti pendem beijos como cerejas. Colho-os um por um com cuidado, sem nunca deixar de sorrir. Cada beijo conta uma história. Chamo-lhes beijos sussurrantes, beijos que segredam em vozes que vêm de longe e evocam palavras sem tempo.


     Aprendo a conhecer-te por esses beijos que lembram cerejas. Polposos, sumarentos, com um travo de Primavera que permanece e me desliza pela alma, inundando-a de vermelho diluído em água cristalina. São beijos de vida, sopros divinos que semeiam sorrisos de criança em lábios murchos que desaprenderam a arte da alegria.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Guerreiro do reino das cores

Guerreiro do reino das cores, cresceu e fez-se rei. Trocou a espada pelo pincel e polvilhou de vida a natureza morta da existência. Pincelada daqui, pincelada dali, com a paixão de um mago conhecedor das leis do universo, fez renascer as tonalidades de tudo quanto existe. O vermelho das flores reergueu-se da palidez da morte e as árvores ondularam com a brisa delicada do pincel. O mar agitado deixou-se acalmar na magia tranquila do sentimento alquímico. Transfigurado, o guerreiro tornado rei, sorriu, feliz com a sua obra. Intensificou a cor azul do céu que cobre uma humanidade sem rumo e confiou no sol brilhante que refulgia em tons de paz e alegria.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Persistência

    Contemplas o jardim. O mesmo que te fez sonhar e te transportou a um tempo suspenso. Procuras-te na natureza que se agita, enquanto a tua alma permanece estranhamente tranquila. Sobressai uma flor vermelha - creio que lhe chamam sardinheira. Não é uma rosa, mas podia ser. Mas não, é uma sardinheira que se destaca e resiste à ventania. Flor habituada à intempérie, que nem o vento mais forte consegue desfolhar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Manhã

O dia escureceu e a manhã acordou encarquilhada. Enrugada como a casca de uma árvore de milénios, alma vivida como o tempo. A bailarina, a rapariga das flores e tantas outras como elas desfilaram perante os seus olhos doridos. A leveza da dança, a alegria, o brilho dos olhos, o perfume das flores desvaneceram-se. Desapareceram numa névoa que, de tão ilusória, pareceu real. Avalanche de sonhos pela montanha abaixo, pedaços desfeitos presos nas rochas do precipício. Onde está a música que a fez dançar? Onde estão as flores que, antes de murcharem, eram vida e perfume? Ouve-se, ao longe, um violino tímido e, na neve, desponta uma florinha trémula que quer abrir-se para o mundo… O mundo, deixem-me rir, disse a manhã, irónica. O mundo! O que é o mundo? Onde está o mundo? Existirá mundo, enquanto existir maldade e sofrimento? A manhã duvida, porque as manhãs também têm dúvidas. Dúvidas tão eternas como elas.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Esperança

   Tempo e Espaço não existem.
   Construções de mentes inquietas.
   A distância é uma ilusão que, em vez de separar, aproxima.
   Quando duas almas estão em sintonia, nem ventos nem tormentos as afastam.
   Unem-nas e fortalecem-nas.
   Vamos esperar e fingir que acreditamos no tempo.
   Fazê-lo é acreditar em nós.

Em toda a parte