Sexta-feira, 2 de Março de 2012

Retorno

    Há dias em que viver ou morrer valem o mesmo. Hoje é um desses. Conto as gotas da chuva que não cai e pergunto-me quanto tempo falta para a partida. Despeço-me sem pesar daquilo a que nunca pertenci e sinto o coração ansiosamente leve. Olho a tua lembrança pela última vez, recordando aquele sorriso... o que me soprou o evanescente na alma e a fez cantar como um regato escondido e feliz. Não te esqueças de correr as cortinas, para que o mundo se aquiete na penumbra do teu gesto. Deixa-me os teus dedos musicais. Toca com eles a alegria peregrina do retorno.

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

Shallot





Querida Berta:

   Se há dias em que celebro o Sol, hoje sinto a contrariedade de estar viva. Se o barqueiro me vier buscar amanhã, esperá-lo-ei no cais, de cabelos soltos ao vento, coroada de margaridas... A existência pesa-me como um grilhão que arrasto ao caminhar. Cada passo, uma dor, um lamento retido na alma.
   Ao longe, ecoa o convite do poeta: "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio...", mas desconheço a voz que o pronuncia. A minha condição de ser sozinha faz de mim uma "pagã inocente" do desencanto, cuja maior ambição é beber a água do rio e diluir-se em orvalho da manhã.
   Antes de saíres, leva-me estas margaridas e põe-mas numa jarra, à janela. Quero que o barqueiro sinta o seu perfume. Depois, fecha a porta silenciosamente e deixa-me dormir sem sonhos, como se não houvesse amanhã.
        Um beijo,

                         Miranda

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Ariel

    Quero amar-te numa cama primaveril, inundada pelo sol da manhã.
    Cheiras a madressilva e a noites de lua cheia - deixa que Ariel abençoe o teu corpo e o envolva no sussurro feérico das folhagens do jardim. Do longe, traz-te tesouros que iluminam os teus olhos de menino e os fazem brilhar de surpresa. Embala-te nos seus braços de brisa, entoa-te melodias de sonhar e flutua contigo num cântico de amor profundo.

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Querida Berta:

    Tanto tempo sem escrever, tanto tempo sem saber de ti! Os dias sucedem-se uns aos outros e o tempo passa sem darmos por isso… Que é feito de mim? Também eu mo pergunto, em turbilhão, neste vendaval de passado, presente e futuro em que não há bússolas ou astrolábios que me valham. O temporal de estrelas que me assola impede-me de ver o caminho, fustigada pelo jogo de cintilações feéricas.

    Apetece-me dormir o sono da Bela Adormecida. Cem anos. Rodeada de arbustos selvagens e espinhos, sem calor nem frio, imperturbável, imune à passagem dos dias. Queria acordar não com um beijo de príncipe, mas com o conhecimento das coisas como se o tivesse sonhado. Cem anos para percorrer os mistérios do universo, pela mão de mil poetas. Sempre imperturbável no meu sono.

    Ao acordar, abriria portas e janelas para que a luz matinal inundasse de cheiros silvestres o espaço anteriormente ocupado pelos meus sonhos visionários. Nesse momento, os arbustos e os espinhos desapareceriam e a minha cama tornar-se-ia um leito virgem de maravilhas sonhadas, coberto de rosas do jardim e urze da serra verdejante.

    Que bom é sonhar! Que bom é acordar e receber a vida num abraço caloroso! Brindemos aos poetas que cantam a palavra cristalina e nos permitem vislumbrar o infinito cintilante!

    Quando voltares, traz-me os morangueiros para o jardim…
  
          Mil beijos, Miranda.

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

Espero por ti na primeira nuvem à direita das Três Marias, com vista para a lua cheia...

Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

Máscara

Quem sou eu
Esta carcaça que desfila máscaras
E representa trechos de dramas
Por escrever?

Nos bastidores da vida
Finjo vivê-la
Invisto em papéis
Que não sou eu.

No meio do palco
Iluminada pelas luzes dormentes
Dos holofotes que me invadem
Sinto o susto
De não ser eu.

Aplausos
Não os quero
Sabem a lágrimas
E cheiram a janelas fechadas.
 
Quero a brisa da manhã
A asa da andorinha
Que voa para o Sul.