terça-feira, 13 de novembro de 2012

a cidade fervilha

a cidade fervilha
e o tempo foge
procuro-te o rosto
no reflexo da chuva

ao longe, notas soltas
numa janela aberta
acordam um piano
ávido de melodia

o poema nasce da música
dedos afagam a palavra
pulsa-te a vida
no brilho dos olhos

e eu sei que
chegaste

domingo, 4 de novembro de 2012

Pedro procura Inês
nos recantos sombrios da noite
na luz fresca da manhã
nos ecos longínquos da calçada
na presença na ausência
no abismo que se aproxima
na redenção do final

Pedro proura Inês
no poema que nasce da terra
no frémito que cruza os céus

Procura sem desesperar
crente na espera
bate no peito e acredita
que amor pode voltar

Pedro procura Inês
além-túmulo além-vida
sem sinal de despedida
até ao fim do mundo
The First Kiss, Laurel Burch

sexta-feira, 2 de março de 2012

Retorno

    Há dias em que viver ou morrer valem o mesmo. Hoje é um desses. Conto as gotas da chuva que não cai e pergunto-me quanto tempo falta para a partida. Despeço-me sem pesar daquilo a que nunca pertenci e sinto o coração ansiosamente leve. Olho a tua lembrança pela última vez, recordando aquele sorriso... o que me soprou o evanescente na alma e a fez cantar como um regato escondido e feliz. Não te esqueças de correr as cortinas, para que o mundo se aquiete na penumbra do teu gesto. Deixa-me os teus dedos musicais. Toca com eles a alegria peregrina do retorno.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Shallot





Querida Berta:

   Se há dias em que celebro o Sol, hoje sinto a contrariedade de estar viva. Se o barqueiro me vier buscar amanhã, esperá-lo-ei no cais, de cabelos soltos ao vento, coroada de margaridas... A existência pesa-me como um grilhão que arrasto ao caminhar. Cada passo, uma dor, um lamento retido na alma.
   Ao longe, ecoa o convite do poeta: "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio...", mas desconheço a voz que o pronuncia. A minha condição de ser sozinha faz de mim uma "pagã inocente" do desencanto, cuja maior ambição é beber a água do rio e diluir-se em orvalho da manhã.
   Antes de saíres, leva-me estas margaridas e põe-mas numa jarra, à janela. Quero que o barqueiro sinta o seu perfume. Depois, fecha a porta silenciosamente e deixa-me dormir sem sonhos, como se não houvesse amanhã.
        Um beijo,

                         Miranda

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ariel

    Quero amar-te numa cama primaveril, inundada pelo sol da manhã.
    Cheiras a madressilva e a noites de lua cheia - deixa que Ariel abençoe o teu corpo e o envolva no sussurro feérico das folhagens do jardim. Do longe, traz-te tesouros que iluminam os teus olhos de menino e os fazem brilhar de surpresa. Embala-te nos seus braços de brisa, entoa-te melodias de sonhar e flutua contigo num cântico de amor profundo.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Querida Berta:

    Tanto tempo sem escrever, tanto tempo sem saber de ti! Os dias sucedem-se uns aos outros e o tempo passa sem darmos por isso… Que é feito de mim? Também eu mo pergunto, em turbilhão, neste vendaval de passado, presente e futuro em que não há bússolas ou astrolábios que me valham. O temporal de estrelas que me assola impede-me de ver o caminho, fustigada pelo jogo de cintilações feéricas.

    Apetece-me dormir o sono da Bela Adormecida. Cem anos. Rodeada de arbustos selvagens e espinhos, sem calor nem frio, imperturbável, imune à passagem dos dias. Queria acordar não com um beijo de príncipe, mas com o conhecimento das coisas como se o tivesse sonhado. Cem anos para percorrer os mistérios do universo, pela mão de mil poetas. Sempre imperturbável no meu sono.

    Ao acordar, abriria portas e janelas para que a luz matinal inundasse de cheiros silvestres o espaço anteriormente ocupado pelos meus sonhos visionários. Nesse momento, os arbustos e os espinhos desapareceriam e a minha cama tornar-se-ia um leito virgem de maravilhas sonhadas, coberto de rosas do jardim e urze da serra verdejante.

    Que bom é sonhar! Que bom é acordar e receber a vida num abraço caloroso! Brindemos aos poetas que cantam a palavra cristalina e nos permitem vislumbrar o infinito cintilante!

    Quando voltares, traz-me os morangueiros para o jardim…
  
          Mil beijos, Miranda.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Espero por ti na primeira nuvem à direita das Três Marias, com vista para a lua cheia...