pena de ave caída no chão
lágrima suspensa em solo árido
mágoa perene
vazio do tempo
sonhos perdidos sem bússola nem mapa
sorriso adiado da terra prometida
juras desfeitas em dilúvio de neve
espírito ausente
para sempre
Sim, meu neto, os meus noventa anos tornaram-me numa mulher velha e dolorida. O tempo deformou as mãos outrora brancas e delicadas com que bordei o meu enxoval e escrevi cartas de amor ao teu avô, o meu companheiro de toda a vida. Fui bela, sim, mas nunca dei à beleza o valor que muitas vezes lhe é atribuído. Descobri que ela é efémera no momento em que ouvi a minha avó dizer que também fora a mais bela rapariga do seu tempo. Gostava de ver a minha imagem reflectida na água do rio onde lavava a roupa: - o meu cabelo era castanho, encaracolado e rebelde e, quando lhe dava o vento, parecia um cavalo à solta, livre e brilhante, como os meus olhos cujo azul se perdia na contemplação da paisagem que me rodeava. O que retenho na memória é o sorriso confiante que me iluminava o rosto rosado do sol. Admiras-te com o contraste entre a vida dura que tive e a alegria que sempre me animou… A minha não foi fácil, bem o sei. Mas foi rica. Rica em tudo aquilo que considero importante: Amor! Casei e amei, pari e amei, vivi e amei. E ainda amo. Amo as pessoas e amo a Vida. Também é verdade que sofri e vi muita desgraça, mas todas essas coisas, somadas às alegrias, completam a nossa riqueza interior, tornam-nos pessoas melhores, mais conscientes da nossa condição humana. Ao longo destes noventa anos, que passaram num ápice e que me deixam confusa quando passo pelo ribeiro e vejo o meu reflexo na água, estive muitas vezes cara-a-cara com a fome e com a morte, mas também recebi a vida de braços abertos: a dos filhos, a dos netos, a dos coelhos nas coelheiras, a dos pintainhos que, atordoados, quebram a casca, a das sementes que se transformam em plantas que nos alimentam a todos nós. Não percebo nada de política, nem de economia, nem de nenhuma dessas coisas de que falam os livros e os engravatados, mas percebo da vida e do seu ciclo e, melhor ainda, sinto-a correr-me nas veias a cada inspiração.
Lamentas que eu não conheça o Mundo, mas não o faças. O pouco que vi dele chegou-me bem para ver o que ele é. A certa altura, preferi deixar de o conhecer. Para mim, ser livre é poder estar onde quero e eu quero estar aqui, junto das árvores, do milho, das batatas e do feijão que ensinei a semear, dos bácoros que ajudo a criar, dos pássaros que esvoaçam à minha volta e chilreiam de manhã para me avisarem que está na hora de saudar o dia. Por isso, não me lamentes, ninguém me roubou o Mundo. O Mundo está comigo, aos meus pés e ao alcance dos meus olhos. Sim, ele vai continuar sem nós, mas lego-lhe uma herança maior do que a que contabilizaste: a continuação da humanidade, um amor incondicional que vibrará durante muito tempo, num raio de muitas léguas, e um neto que nasceu abençoado com o dom da palavra. Embora eu acredite que se pode estar em comunhão sem a necessidade de usar a palavra. O silêncio tem a magnitude do infinito. Por isso, a minha vida não foi em vão.
Tenho pena de morrer, porque não poderei saudar o dia. Um dia, quando tiveres noventa anos e voltares às tuas origens, entenderás porque me sento eu “na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa”…
Avó Josefa
Querida Berta:
O melancólico dia de hoje e a solidão da chuva estival despertaram-me o desejo de me aconchegar na concha da memória. O meu jardim de outono manifesta-se nestes dias, a relembrar-me que a queda da folha se aproxima a passos largos. O recolhimento, o silêncio, a vontade de criar tornam-se urgentes em mim. As palavras sobem das profundezas do poço em que mergulho quando durmo e afloram à superfície, vibrantes, cheias de vida, cristalinas e poderosas como um canteiro de flores coloridas e singelas. Quando é assim, minha querida Berta, sei que tenho de me sentar e escrever-te.
Escrevo-te da minha janela. O vento agita as folhagens e eu sinto-me acompanhada. O meu amigo vento. Aquele que sopra e traz renovação. Apetece respirar este ar fresco, rebelde, que parece querer contar-nos tudo, atropelando-se a si próprio, incoerente na busca de um discurso coerente. Os meus pensamentos entram em sintonia com este discurso cheio de significados. Dançam com ele e celebram a surpresa de uma visita inesperada. Que bom, chegou o vento!, parecem dizer, desejando convidá-lo para um chá na varanda. Confesso que sentia falta desta paz que hoje me inunda. Como se o tempo tivesse parado para mim, esse tempo que nunca se detém, para que eu pudesse respirar sem me sentir obrigada a fazê-lo.
O outono manifesta-se em mim. Sinto-o apossar-se do meu peito e espalhar-se pelo corpo todo. Não temas por mim, eu não tenho medo, não estou assustada. Sinto uma quase felicidade por me poder aproximar daquilo que só o tempo traz. Cada dia a mais é um dia a menos, só isso me deixa uma leve tristeza. O outono também tem flores e frutos e os tons vermelhos e amarelos nas folhas. O outono é um convento de silêncio e de paz, o recolhimento da natureza, a preparação para o inverno, a germinação de uma nova vida.
Liberto-me das futilidades e das mesquinhices do quotidiano. Torno-me mais eu e mais tranquila. O mundo tem ruído a mais. Prefiro o cheiro da terra molhada, da vida confidente, da divindade que estende a mão ao meu ser mais puro. É aqui que me encontro, é aqui que vivo. O Joaquim ensinou-me muito com a sua partida. Desprendeu-se da mãe árvore com a dignidade de uma folha que cumpriu o seu destino. Também eu quero ser assim.
Tenho saudades tuas, das nossas conversas. Quando quiseres fugir um pouco ao ruído do mundo, sabes onde te espero, sempre, de braços abertos.
Mil beijos,
Miranda
* à Ana Salomé