domingo, 15 de janeiro de 2012

Querida Berta:

    Tanto tempo sem escrever, tanto tempo sem saber de ti! Os dias sucedem-se uns aos outros e o tempo passa sem darmos por isso… Que é feito de mim? Também eu mo pergunto, em turbilhão, neste vendaval de passado, presente e futuro em que não há bússolas ou astrolábios que me valham. O temporal de estrelas que me assola impede-me de ver o caminho, fustigada pelo jogo de cintilações feéricas.

    Apetece-me dormir o sono da Bela Adormecida. Cem anos. Rodeada de arbustos selvagens e espinhos, sem calor nem frio, imperturbável, imune à passagem dos dias. Queria acordar não com um beijo de príncipe, mas com o conhecimento das coisas como se o tivesse sonhado. Cem anos para percorrer os mistérios do universo, pela mão de mil poetas. Sempre imperturbável no meu sono.

    Ao acordar, abriria portas e janelas para que a luz matinal inundasse de cheiros silvestres o espaço anteriormente ocupado pelos meus sonhos visionários. Nesse momento, os arbustos e os espinhos desapareceriam e a minha cama tornar-se-ia um leito virgem de maravilhas sonhadas, coberto de rosas do jardim e urze da serra verdejante.

    Que bom é sonhar! Que bom é acordar e receber a vida num abraço caloroso! Brindemos aos poetas que cantam a palavra cristalina e nos permitem vislumbrar o infinito cintilante!

    Quando voltares, traz-me os morangueiros para o jardim…
  
          Mil beijos, Miranda.