segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Bailarina

    Sem querer, a bailarina dançou. Levantou-se do canto onde se escondera e deixou-se levar pelo som celta que lhe rebuscava os sentimentos mais profundos, acordando-os e trazendo-os à tona.

    A música chamava-se “Riverdance” e trouxe-lhe à memória uma imensidão de prados verdes, colinas ondulantes, ruínas perdidas no meio da paisagem. Um som distante, duma vivência distante. O tempo em que o mundo era mundo e tudo fazia sentido. O coração tremia-lhe, mas conseguiu erguer-se, depois de mãos descuidadas a terem empurrado para o chão. Por momentos, vacilou e pensou «não vou ser capaz, nunca mais vou dançar». Doíam-lhe as pernas e o peito. As feridas invisíveis só ela as sentia – até aos ossos, até ao âmago de uma essência forte mas frágil, alegre mas triste, viva mas morta. A essência de uma mulher bailarina que não nasceu para caminhar, mas para voar, para rodopiar no etéreo, acima do sofrimento que as pedras do chão provocam na delicadeza da carne que conhece o transcendente.

    O som inesperado do violino fê-la sorrir. Pensou «tenho vontade de dançar». Levantou-se e dançou como se não houvesse mundo, como se apenas a música lhe justificasse a existência. Dançou e deixou de sentir a dor. Dançou e milhares de aves esvoaçaram em seu redor. Dançou e tornou-se éter, rodopiando até se fundir com a música e a claridade do dia.