sábado, 21 de maio de 2011

A rapariga das flores

        A rapariga das flores voltou a vê-las murchar, depois de ter as ter regado e de as ter sentido florescer dentro de si. Naquele peito cheio de luz, as flores absorveram a energia poderosa de quem acreditava que as flores florescem só porque nós assim o queremos. As flores também florescem por si e, se elas escolhem não florescer, murcham. Por isso, o ramo florido que a rapariga apertava junto ao peito murchou.
     As flores perderam a sua altivez segura e inclinaram-se de súbito, murcharam de imediato e desfizeram-se em pó. A rapariga olhou para as suas mãos. Para o seu peito. As mãos seguravam caules secos, despidos da beleza mágica e fresca da vida. No peito, vestígios de pólen e pedaços de pétalas acastanhadas, amarfanhadas, desfeitas, inúteis - mortas. Lá dentro, o vazio de novo. Canteiro sem flores, invernio, de terreno árido, abandonado pelo jardineiro.
     Quem ama flores, acredita que elas duram para sempre. Não está preparado para a escuridão, depois de ver a luz. Mas também sabe que as flores só vivem enquanto querem e porque querem. Pobre rapariga das flores! As mãos brancas amarelecidas pelo ramalhete desfeito, lavou-as com as lágrimas choradas por dentro. O coração sem as cores vibrantes das flores que acarinhou, pincelou nele memórias distantes – de outros tempos, de outras vidas – o colorido do canteiro que ainda espera… Logo que chegue a Primavera!