sábado, 18 de fevereiro de 2012

Shallot





Querida Berta:

   Se há dias em que celebro o Sol, hoje sinto a contrariedade de estar viva. Se o barqueiro me vier buscar amanhã, esperá-lo-ei no cais, de cabelos soltos ao vento, coroada de margaridas... A existência pesa-me como um grilhão que arrasto ao caminhar. Cada passo, uma dor, um lamento retido na alma.
   Ao longe, ecoa o convite do poeta: "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio...", mas desconheço a voz que o pronuncia. A minha condição de ser sozinha faz de mim uma "pagã inocente" do desencanto, cuja maior ambição é beber a água do rio e diluir-se em orvalho da manhã.
   Antes de saíres, leva-me estas margaridas e põe-mas numa jarra, à janela. Quero que o barqueiro sinta o seu perfume. Depois, fecha a porta silenciosamente e deixa-me dormir sem sonhos, como se não houvesse amanhã.
        Um beijo,

                         Miranda