sexta-feira, 8 de abril de 2011

Perfume

Um Black Devil de chocolate deixa-me nos lábios aquilo que imagino ser o sabor dos teus beijos. Ou será antes o travo a jasmim que deixa o chá que bebo e me preenche o vazio da alma? Enovela-se o fumo no ar e nascem poemas sem palavras, escritos para ti, projetados e transportados no éter que nos afasta, mas que, tão apertadamente, nos cola um ao outro como se esse fosse o nosso estado natural. Nascem poemas como flores selvagens e coloridas naquele canteiro árido que era o meu peito. O sol espreita por entre os caminhos turvos da floresta onde me perdi e parece guiar-me para a clareira onde me aguarda a paz e a harmonia. O cansaço dos olhos desvanece-se e, por momentos, o brilho volta, numa doce promessa de eternidade. Eu, que fui toupeira a escavar o buraco mais escuro, bicho cego com medo de enfrentar a luz, inspiro com força a brisa da manhã e preparo-me para ascender à superfície. Caminho inverso ao da escuridão. O rumo do marinheiro perdido, prestes a naufragar. Procuro a praia. O restolhar das folhas das árvores. A cumplicidade da luz que me aquece e me alenta. Pinceladas de cor animam a respiração da vida. Sigo as pistas e sei que a clareira me espera. Já não me sinto só. Uma flor despontou em mim e as suas pétalas impregnam-me a alma de perfume… É o perfume do que está para vir, do riacho secreto onde ainda correm águas cristalinas. É o sonho a romper as amarras da sombra e a abrir claraboias nos rochedos com que o meu ser se aprisionou. Chamam-lhe amor, mas eu chamo-lhe inocência primordial. O palpitar daquilo que nos transcende e nos diviniza. Amor, palavra mágica, que cria flores onde o sofrimento deixou espinhos petrificados.