terça-feira, 17 de agosto de 2010

Carta para José meu neto:

Sim, meu neto, os meus noventa anos tornaram-me numa mulher velha e dolorida. O tempo deformou as mãos outrora brancas e delicadas com que bordei o meu enxoval e escrevi cartas de amor ao teu avô, o meu companheiro de toda a vida. Fui bela, sim, mas nunca dei à beleza o valor que muitas vezes lhe é atribuído. Descobri que ela é efémera no momento em que ouvi a minha avó dizer que também fora a mais bela rapariga do seu tempo. Gostava de ver a minha imagem reflectida na água do rio onde lavava a roupa: - o meu cabelo era castanho, encaracolado e rebelde e, quando lhe dava o vento, parecia um cavalo à solta, livre e brilhante, como os meus olhos cujo azul se perdia na contemplação da paisagem que me rodeava. O que retenho na memória é o sorriso confiante que me iluminava o rosto rosado do sol. Admiras-te com o contraste entre a vida dura que tive e a alegria que sempre me animou… A minha não foi fácil, bem o sei. Mas foi rica. Rica em tudo aquilo que considero importante: Amor! Casei e amei, pari e amei, vivi e amei. E ainda amo. Amo as pessoas e amo a Vida. Também é verdade que sofri e vi muita desgraça, mas todas essas coisas, somadas às alegrias, completam a nossa riqueza interior, tornam-nos pessoas melhores, mais conscientes da nossa condição humana. Ao longo destes noventa anos, que passaram num ápice e que me deixam confusa quando passo pelo ribeiro e vejo o meu reflexo na água, estive muitas vezes cara-a-cara com a fome e com a morte, mas também recebi a vida de braços abertos: a dos filhos, a dos netos, a dos coelhos nas coelheiras, a dos pintainhos que, atordoados, quebram a casca, a das sementes que se transformam em plantas que nos alimentam a todos nós. Não percebo nada de política, nem de economia, nem de nenhuma dessas coisas de que falam os livros e os engravatados, mas percebo da vida e do seu ciclo e, melhor ainda, sinto-a correr-me nas veias a cada inspiração. Lamentas que eu não conheça o Mundo, mas não o faças. O pouco que vi dele chegou-me bem para ver o que ele é. A certa altura, preferi deixar de o conhecer. Para mim, ser livre é poder estar onde quero e eu quero estar aqui, junto das árvores, do milho, das batatas e do feijão que ensinei a semear, dos bácoros que ajudo a criar, dos pássaros que esvoaçam à minha volta e chilreiam de manhã para me avisarem que está na hora de saudar o dia. Por isso, não me lamentes, ninguém me roubou o Mundo. O Mundo está comigo, aos meus pés e ao alcance dos meus olhos. Sim, ele vai continuar sem nós, mas lego-lhe uma herança maior do que a que contabilizaste: a continuação da humanidade, um amor incondicional que vibrará durante muito tempo, num raio de muitas léguas, e um neto que nasceu abençoado com o dom da palavra. Embora eu acredite que se pode estar em comunhão sem a necessidade de usar a palavra. O silêncio tem a magnitude do infinito. Por isso, a minha vida não foi em vão. Tenho pena de morrer, porque não poderei saudar o dia. Um dia, quando tiveres noventa anos e voltares às tuas origens, entenderás porque me sento eu “na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa”… Avó Josefa
(Catarina Teixeira)